terça-feira, 20 de setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Quartel General

Aliste-se se você tem 18 anos.

Hoje eu tive um sonho que me mostrava um grande desejo no meu coração de servir o “exército”.
Pensei: - Puxa! Já tenho dezoito anos, está na hora de deixar a casa de meus pais e virar homem macho, sendo o exército a melhor e única maneira dessa realização. Vou correr ao Quartel General mais próximo e fazer meu alistamento.
Peguei todos os documentos e não deixei faltar nada, inclusive à caneta de tinta azul que ganhei da minha filha. Ops! Minha filha? Ué! Olhei para o lado e não era minha mãe que arrumava minha mala e sim minha esposa, já estamos casados há quatorze anos, então devo ter no mínimo quarenta e um anos de vida, não liguei muito para isso, pois queria mesmo me alistar. De repente num piscar de olhos (esse é o segredo dos sonhos) me encontrei bem no meio de uma selva fechada com animais ferozes por todos os lados, fiquei com muito medo, ainda não tinha o uniforme e nem armas do exército, não havia treinado sobre sobrevivência em mata selvagem, novamente num piscar de olhos, apareceu na selva um espelho de uns três metros onde me mostrou algo amarrado na minha testa, era um livrinho, tentei pegá-lo, mas não consegui, estava bem preso. Firmemente preso. Os animais eram muito ferozes e parecia que não se alimentam há semanas; todavia nenhum deles se aproximou de mim. Pensei:
- Preciso sair daqui o mais rápido possível para me inscrever no exército.
Mergulhei num grande lago escuro de água gelada e saí numa alta montanha. Pensei que lá poderia ser o Quartel General, mas não era. Minhas forças já estavam se esgotando, quando comecei a escorregar dessa gigantesca montanha e me deparei no final da descida num vale muito tenebroso, senti um frio na espinha e o medo novamente se apoderou de mim, pois as criaturas daquele vale eram piores do que os animais da selva. O medo era tanto que me encolhi na posição fetal esperando minha morte. Enquanto ela não chegava, minha consciência me levou para algumas coisas na vida que realmente valeram à pena. Lembrei-me quando minha mãe, minha irmã e eu deitávamos na sala de casa com o chão de taco para assistir “Seresteiro de Acapulco” com o Elvis. Naquela época o televisor era a válvula não tínhamos sofá nem estantes no cômodo. Lembrei também dos pés descalços na terra, e dos campinhos de futebol que fazíamos nos terrenos baldios. Também me lembrei do meu primeiro “palavrão”, foi quando o “Biro Biro” errou um gol contra o Palmeiras; que raiva! Não foi legal me lembrar do “palavrão”, mas o clássico; nunca esquecerei. Lembrei de muitas outras coisas que dariam um bom livro.
Nesse momento do sonho percebi que a morte não havia chegado, e as grandes criaturas piores do que as primeiras se jogavam contra mim, mas alguma coisa as parava, não sabia o que era, mas era algo sobrenatural. Senti-me protegido como nunca havia me sentido antes. Ainda tive tempo de me preocupar com minha roupa que nessa hora já deveria estar rasgada, destruída e suja; senti a presença do espelho novamente e ele estava lá querendo que eu olhasse, tive vergonha da minha sujeira, ninguém se apresenta ao Quartel General, sujo, inadequado, mas para minha surpresa minha vestimenta estava completamente limpa, mais do que limpa, branca como a neve; espantado fiquei, aquela roupa não me pertencia e me perguntava:
- Quem me deu essa roupa tão branquinha assim?
As criaturas já haviam desistido de mim, algo as incomodou e fugiram da minha presença.
Já não me encontrava exausto nem com sede, nem com medo. Olhei para o horizonte e percebi o caminho que deveria percorrer, “algo” me dizia que era naquela direção, contudo a trajetória a percorrer era centenas de quilômetros. Andei durante meses, não precisei nem de água nem de alimento e quanto mais andava mais alvo que a neve era minha roupa. Quando no final dessa trajetória avistei o Quartel General, mais parecia um Castelo forte, ou uma Cidade Ataviada do céu. Quanto mais me aproximava meu coração batia mais forte, era uma visão extasiante. Percebi que muitos soldados do “Exército” estavam me aguardando para o alistamento. Uns me aplaudiam outros vaiavam. Perguntei para um Senhor que estava ao meu lado:
- Por que uns vaiam e outros aplaudem?
Ele respondeu: - Nesse Quartel General as vaias e os aplausos soam da mesma maneira.
Tornei a perguntar:
- Por que todos não têm armas e uniformes e estão vestidos de branco?
Ele respondeu: - Nesse Quartel General, os soldados não usam armas de fogo e seus uniformes sempre foram brancos.
Mesmo achando meio esquisito avistei em cima de uma grande mesa feita de Pérola de Grande valor o “Livro do Alistamento”.
- Puxa! Consegui, cheguei! Depois de tanto tempo esse será meu alistamento.
Coloquei a mão no bolso, tirei a caneta de tinta azul que havia ganhado da minha querida filha. Estava tanto tempo longe dela e de minha amada, mas meu coração não sentia saudade, nem nos meus olhos havia lágrimas. Perguntei mais uma vez ao Senhor que estava ao meu lado:
Não consigo entender isso, sem saudade e sem lágrimas. Por quê?
Respondeu ele: - Nesse Quartel General não existe saudade nem lágrimas, pois todos estão juntos e toda lágrima foi enxugada.
Depois de tantos acontecimentos já não ligava para mais nada, queria mesmo era me alistar.
O “Grande livro do Alistamento” se abriu em cima da mesa como num passe de mágica. Um vento do leste bateu e suas páginas foram para o dia trinta de fevereiro. Eu disse:
- Bom depois de tanto tempo nem sei que dia é hoje, mas deve ser esse mesmo.
Inclinei-me para escrever meu nome. E o Senhor que estava ao me lado me disse: - Nesse Quartel General o alistamento não pode ser feito com tinta azul, apenas vermelha.
Procurei uma caneta vermelha, mas ninguém tinha. Esse Senhor me mostrou todos os seres humanos na face da terra, todos tinham uma caneta no bolso direito, mas ninguém dentre os humanos possuía uma de tinta vermelha.
Nesse momento foi permitido que minhas lágrimas saíssem, mas meu choro não era por minha filha ou esposa, mas porque dentre todos os seres humanos ninguém tinha uma caneta de tinta vermelha.
Foi quando o Senhor que estava ao meu lado, colocou sua mão no meu ombro, imediatamente o livrinho que estava firmemente preso em minha fronte caiu no chão e sumiu como num passe de mágica.
O Senhor me disse:
- Venha e vede.
Ele me levou até o livro e meus olhos deslizaram até a letra “W” e por incrível que pareça, lá estava meu nome: WAGNER MIGNELLA, em vermelho. O Senhor me disse:
- Você já está no Livro. Seu nome está aí antes da fundação do mundo, e só EU tinha a caneta vermelha. Tomei a liberdade que só EU tenho, de inscrever-te.
Ele olhou nos meus olhos, percebi que já o conhecia de outras ocasiões. Senti compaixão como nunca havia sentido, me deu um beijo na testa e saímos de mãos dadas.
Há! Já ia esquecer Ele também me disse:
- Isso não é um sonho é a REALIDADE.

FIM

quarta-feira, 7 de setembro de 2011