sábado, 4 de fevereiro de 2012

Os Concílios Sacrossantos que não conciliam.

“Ninguém pode afirmar que uma Verdade deixa de ser Verdade por ter o menor número de adeptos. Quando Pauster apresentou a sua verdade bacteriológica, teve contra si a maioria dos cientistas da França e nem por isso a sua verdade deixou de ser Verdade. A maioria do Sinédrio condenou a Jesus contra poucos votos favoráveis e pelo fato de ser a sentença aprovada pela maioria não deixa de ser injusta. Se realizamos um plebiscito pedindo o pronunciamento da vontade geral sobre o quadro da hipotenusa, este não deixará de ser a soma do quadrado dos catetos, ainda que um só homem, um geômetra, fique sozinho contra todo o peso da opinião pública”. (Dr. Aníbal Pereira dos Reis)

Pastoreio a Igreja Batista em Guarantã/SP, percebi a preocupação que algumas pessoas tinham sobre minha vida ministerial. Minha querida mãezinha que não sabe muita coisa sobre teologia, mas vive o evangelho de forma que seminaristas deveriam marcar conferências particulares com ela, foi questionada sobre minha ordenação, o negócio é estranho, se a ordenação é minha, por que ela é questionada? A pessoa ainda disse que se eu não fosse ordenado, não teria identidade. Outro dia um “pastor” disse do púlpito que só é pastor se for ordenado. Portanto me senti na obrigação de relacionar abaixo o texto do Frank Viola (não creio tudo sobre o que ele diz, mas a história é completa) sobre o tema, mostrando através da história que além da ordenação pastoral não ser eclesiástica também fere o principio do Sacerdócio de todos os crentes. O Texto mostrará sua origem judaica e pagã para surpresa de muitos.

Constantino e a Glorificação do Clero

Entre 313 e 325 d.C. o cristianismo deixou de ser uma religião arredia lutando para sobreviver ao governo romano. Agora tomava o sol do imperialismo, com grande quantidade de dinheiro, posição e estima. Ser cristão sob o reino de Constantino já não era mais uma desvantagem. Pertencer à mesma religião do imperador era moda. E fazer parte do clero era receber a maior das recompensas.

Constantino exaltava o clero. No ano 313 d.C., ele deu ao clero cristão a isenção de impostos — algo que os sacerdotes pagãos tradicionalmente desfrutavam. O clero também se viu isento de serviços públicos obrigatórios e outros deveres cívicos. O clero estava livre de ser julgado pela corte secular e de servir ao exército. (Os Bispos eram julgados somente em uma corte especial de Bispos, não pelas cortes comuns do Estado).

Em todas estas coisas o clero recebeu uma posição social especial. Constantino foi o primeiro a usar as palavras “clérigo” e “clero” para destacar uma classe social mais elevada. Também sentiu que o clero cristão merecia o mesmo privilégio dos oficiais governamentais. Portanto, os Bispos podiam servir na magistratura da mesma forma que os juízes seculares.

Os clérigos receberam as mesmas honras que os mais altos oficiais do Império Romano recebiam, e das mãos do próprio Imperador. A verdade bruta é que Constantino deu aos Bispos de Roma mais poder que aos governadores romanos! Ele também ordenou que o clero recebesse uma paga anual fixa; uma paga pelo ministério!

O resultado líquido disto foi alarmante: O clero teve o prestígio de profissionais da igreja, o privilégio de uma classe favorecida e o poder de uma elite rica. Eles tinham se tornado uma classe isolada com uma condição civil e um modo de vida separado. (Isto incluiu o celibato clerical). Além disso, eles se vestiam e se acomodavam de uma maneira distinta das pessoas comuns. Os Bispos e sacerdotes rasparam suas cabeças. Esta prática, conhecida como tonsure, foi herdada da velha cerimônia de iniciação romana. Todos aqueles que tinham suas cabeças raspadas eram conhecidos como “clérigos” ou “membros do clero”. Eles também começaram a vestir-se com a roupa dos mandatários romanos.

Não é de surpreender que tanta gente nos dias de Constantino experimentasse um repentino “chamado ao ministério”. Para eles, ser um mandatário da igreja agora era mais uma carreira que um chamado.

Uma Falsa Dicotomia
Sob Constantino, o cristianismo foi reconhecido e honrado pelo Estado. Isto apagou a linha entre a igreja e o mundo. A fé cristã já não era uma religião de minoria. Melhor dizendo, era protegida pelo Imperador. Como conseqüência, a quantidade de membros aumentou rapidamente. Formaram-se levas de novos convertidos. Por serem mal convertidos trouxeram consigo uma grande quantidade de idéias pagãs para dentro da igreja. Nas palavras de Will Durant, “enquanto o cristianismo convertia o mundo, o mundo convertia o cristianismo, tornando o paganismo algo natural para a humanidade”.

Como vimos anteriormente, as práticas das religiões místicas começaram a ser utilizadas na adoração da igreja. E a noção pagã da dicotomia entre o sagrado e o profano encontrou caminho fértil na mentalidade cristã. Pode-se dizer corretamente que a distinção de classe entre o clero e o leigo resultou diretamente dessa dicotomia. A vida cristã agora se dividia em duas partes: O secular e o espiritual — o sagrado e o profano.

Mas pelo século IV esta falsa idéia foi adotada universalmente pelos cristãos. Isto produziu a idéia profundamente errônea de que há profissões sagradas (um chamado ao “ministério”) e profissões ordinárias, “um chamado vocacional mundano”. O historiador Philip Shaff descreve corretamente estes fatores quando menciona que a “secularização da igreja” foi o fator que contaminou a “corrente pura do cristianismo”. Note que esta dicotomia errônea vive na mente da maioria dos crentes hoje. Todavia tal conceito é pagão, não cristão. Ele rompe a realidade neotestamentária que diz que a vida diária é santificada por Deus.

Clemente de Roma (morreu em 100 d.C.) foi o primeiro escritor cristão a fazer uma distinção na condição [status quo] de líderes cristãos e não líderes. Ele foi o primeiro a usar a palavra “leigo” contrastando com ministros. Clemente sustentava que a ordem do Velho Testamento com respeito aos sacerdotes deveria ser cumprida na igreja cristã.

Tertuliano foi o primeiro escritor a utilizar a palavra “clero” referindo-se a uma classe de cristãos separados. Ambos, Tertuliano e Clemente de Alexandria (150-215) popularizaram a palavra “clero” em suas obras.

Pelo século III a brecha entre clero e leigo se estendeu ainda mais e chegou a um ponto irremediável. Os clérigos eram líderes treinados da igreja — os guardiões da ortodoxia — os governadores e mestres do povo. Eles possuíam dons e graças que não estavam disponíveis aos simples mortais.

O laicato era um extrato social de segunda classe, de cristãos ignorantes. O grande teólogo Karl Barth disse corretamente, “o termo 'leigo' é um dos piores do vocabulário religioso e deve ser eliminado da conversação cristã”.

Os termos “clero” e “leigo” não aparecem no NT. Tampouco contém o conceito de que há os que fazem o ministério (clero) e os que são objeto do ministério (leigos). Então, o que temos em Tertuliano e Clemente é uma plena digressão da postura dos primeiros cristãos onde todos os crentes partilhavam do mesmo status.

A distinção entre clero e leigo — entre o que ocupava o púlpito e o que se sentava no banco — pertence ao outro lado da cruz. Com o novo pacto em Cristo, o clero e o leigo são eliminados. Há somente o povo de Deus.

Junto com estas mudanças de postura chegou um novo vocabulário. Os cristãos começaram a adotar o vocabulário das seitas pagãs. O título pontifex (pontífice, um título pagão) Assim sucedeu também com os termos “Mestre de Cerimônia” e “Gran Maestro de Loja”. Tudo isso reforçou o misticismo do clero enquanto guardiões dos mistérios de Deus.

Pelo século V, a idéia do sacerdócio de cada crente havia desaparecido completamente do horizonte cristão. O acesso a Deus agora era controlado pela casta clerical. Foi exigido o cumprimento do celibato clerical. As pessoas comuns participavam com pouca freqüência da comunhão. O edifício agora estava velado de incenso e fumaça. As orações clericais eram feitas secretamente. E a pequena porem profundamente significante cortina de seda que separava o clero do leigo foi estabelecida. Em suma, pelo fim do século IV e entrando no V, o clero chegou a ser uma casta sacerdotal — um grupo espiritual da elite dos “homens santos”. Isto nos conduz ao tema espinhoso da ordenação.

A Falácia da Ordenação
No século IV, a teologia e o ministério eram âmbito dos sacerdotes. O trabalho e a guerra eram âmbito do leigo. Qual era o rito de passagem para o âmbito sagrado do sacerdote? A Ordenação.

Antes de examinar as raízes históricas da ordenação, vejamos como se reconhecia a liderança na Igreja Primitiva. Os obreiros apostólicos (plantadores de igrejas) do século I voltavam a visitar uma igreja depois de um período de tempo. Em algumas congregações os trabalhadores reconheciam publicamente os anciãos. Em todos os casos os anciãos já tinham estado naquele lugar antes de serem reconhecidos publicamente.

Os anciãos surgiam naturalmente em uma congregação com o passar do tempo. Eles não eram nomeados por uma autoridade externa. Ou seja, cada um deles era reconhecido devido a sua antigüidade e contribuição com a igreja. Segundo o NT, o reconhecimento de certos dons dos membros é algo instintivo e orgânico. Há um princípio interno dentro de cada crente que reconhece os vários ministérios na congregação.

Surpreendentemente, há apenas três passagens no NT que nos dizem que os anciãos eram reconhecidos publicamente. Anciãos foram reconhecidos nas congregações da Galácia. Paulo disse a Timóteo que conhecera anciãos em Éfeso. Disse o mesmo a Tito com relação às igrejas de Creta.

A palavra “ordenar” (KJV) destas passagens não significa ocupar um cargo. Ou melhor, ela traz a idéia de afirmar, reconhecer e apoiar um desdobramento de algo que já está acontecendo. Ela também traz a idéia de bênção. O reconhecimento público dos anciãos e de outros ministérios geralmente era acompanhado pela imposição de mãos pelos obreiros apostólicos. (No caso dos obreiros enviados a outros lugares isto era feito pela congregação aos anciãos).

No século I, a imposição de mãos meramente significava apoiar ou reafirmar uma função, não indicava uma nomeação a uma posição ou a elevação a uma categoria especial. Lamentavelmente mais adiante, no final do século II e no princípio do III, isso chegou a significar uma posição especial.

Durante o século III a “ordenação” assumiu um significado completamente diferente. Era um rito cristão formalizado. Pelo século IV, a cerimônia da ordenação foi ornada por vestimentas simbólicas e por um rito solene. A ordenação produziu uma casta eclesiástica que usurpou o sacerdócio dos crentes.

Donde você supõe que os cristãos adquiriram seu padrão de ordenação? Eles copiaram sua cerimônia de ordenação do costume romano de designar homens ao serviço civil. Todo o processo, cada palavra, saiu diretamente do mundo cívico romano.

Antes do século IV os termos utilizados para a nomeação de cargos governamentais romanos e a ordenação cristã eram sinônimos. Quando Constantino fez do cristianismo sua religião preferida às estruturas de liderança da igreja passaram a ser sustentadas através da sanção política. Formas de sacerdócio do Velho Testamento foram combinadas com a hierarquia grega. Tristemente, a igreja estava segura nesta nova fórmula — exatamente como está hoje.

Agostinho (293-373) foi ainda mais longe ensinando que a ordenação confere ao ordenado “um caráter definitivo e irremovível” que o capacita no cumprimento de suas funções sacerdotais! Para Agostinho, a ordenação era uma posição permanente que não poderia ser revogada.

A ordenação cristã, então, chegou a ser compreendida como aquilo que constitui a diferença essencial entre clero e leigo. Por ela o clero era autorizado a ministrar os sacramentos. Acreditava-se que o sacerdote, que faria o serviço divino, deveria ser o cristão mais perfeito e santo de todos.

Gregório de Nacianceno (329-389) e Crisóstomo (347-407) elevaram a norma padrão tão alto no que diz respeito aos sacerdotes que falhar em cumprir a santidade de seu serviço prejudicaria sua posição ou o levaria a um estado crítico. Segundo Crisóstomo o sacerdote é como um anjo. Ele não possui a mesma fraqueza do resto dos homens!

Como poderia o sacerdote viver em tal estado de pura santidade? Como poderia ele ser digno de servir no “coro dos anjos”? A resposta era a ordenação. Pela ordenação, a corrente das graças divinas fluía ao sacerdote, equipando-o para ser um instrumento digno nas mãos de Deus. Esta idéia, também conhecida como “dom sacerdotal”, apareceu primeiramente com Gregório de Nisa (330-395).

Gregório sustentava que a ordenação configura o sacerdote de uma forma “invisível” como “um homem diferente e melhor”, elevando-o acima do leigo. “O próprio poder da Palavra”, disse Gregório, “faz com que o sacerdote seja venerável, honorável, separado… Embora no dia anterior ele fosse apenas uma pessoa no meio das massas, alguém do povo, ele é repentinamente convertido em guia, presidente, mestre de justiça, instrutor de mistérios ocultos…”.

Atente para estas palavras de um documento do século IV: “O Bispo, eis o ministro da Palavra, o guardião do conhecimento, o mediador entre Deus e você em várias partes de sua adoração divina… Ele é seu soberano e governante… Ele está em segundo lugar depois de Deus, seu deus terreal, que tem o direito de ser honrado por tua pessoa”.

A ordenação concede ao sacerdote (ou Bispo) poderes divinos especiais tornando-o apto a oferecer o sacrifício da Missa. A ordenação também o torna um tipo de homem completamente separado e santo! Os sacerdotes chegaram a ser identificados como “vigários de Deus na terra”. Eles chegaram a fazer parte de uma ordem de homens especiais. Uma ordem apartada dos “leigos” da igreja.

O estilo de vida do sacerdote e suas vestes eram distintos do leigo, justamente para ressaltar esta diferença. Lamentavelmente, este conceito de ordenação nunca foi abolido da fé cristã. Está vivo e bem vivo no moderno cristianismo. De fato, se você está perguntando por que e como o pastor moderno chega a ser elevado ao patamar de “homem santo de Deus”, estas são suas raízes.

Eduardo Schweizer, em sua clássica obra Church Order in the New Testament, sustenta que Paulo nada sabia a respeito de qualquer ordenação conferindo poderes ministeriais ou clericais ao cristão. Os pastores, (anciãos, supervisores) do primeiro século não receberam nada parecido com a moderna ordenação. Eles não estavam acima do restante do rebanho. Eles eram aqueles que serviam entre eles.

Os anciãos do século I eram apenas publicamente reconhecidos pelos obreiros de fora como aqueles que cuidavam da igreja. Tratava-se de um simples reconhecimento de uma função. Algo que não conferia nenhum poder especial. Tampouco era uma posição permanente como acreditava Agostinho.

A moderna prática da ordenação cria uma casta especial de cristão. Seja ele sacerdote no catolicismo ou pastor no protestantismo, o resultado é o mesmo: O ministério mais importante restringe-se a uns poucos crentes “especiais”.

Tal idéia é tão daninha quanto antibíblica. O eminente erudito James D. G. Dunn esclarece melhor este ponto quando diz que a tradição clero-leigo contribuiu mais para minar a autoridade do NT do que a maioria das heresias!

Na medida em que alguém poderia desempenhar certa função na igreja através do rito da ordenação, o poder de ordenar passou a constituir o ponto chave no que diz respeito à autoridade religiosa. O contexto bíblico se perdeu. E passou-se a utilizar métodos de comprovar textos para justificar a hierarquia clero-leigo. O crente comum, geralmente inculto e ignorante, ficou a mercê do clero profissional!

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